Nó Studio

Projeto de identidade visual para escritório de arquitetura e urbanismo. São Carlos, 2025.

O contexto

O Nó Arquitetura me procurou com uma demanda aparentemente simples: precisavam de um website que traduzisse a linguagem arquitetônica do escritório. Mas ao mergulhar na história dos três sócios — Caio Valença, Luan Mota e Valdemar Serra —, ficou claro que o problema ia muito além da ausência de uma página na internet. O que faltava era algo mais estrutural: uma identidade visual que refletisse a maturidade técnica, a brasilidade crítica e a trajetória de resistência que os três carregavam.

Sediado em Recife, o escritório atua com projetos residenciais contemporâneos e retrofit, dialogando com referências do modernismo brasileiro, arquitetura de concurso e materiais honestos: concreto aparente, terracota, madeira e vegetação tropical. A estética deles é quase uma “MPB da arquitetura” — sofisticada, brasileira, atemporal e profundamente enraizada no lugar. Mas essa identidade só existia nos projetos físicos; no universo digital, eles eram invisíveis.

Os três arquitetos são negros e nordestinos. Suas trajetórias profissionais foram marcadas por exclusão sistemática em grandes escritórios, onde ideias eram ignoradas ou creditadas a outros, e competência era constantemente questionada. Cansados de sobreviver em um mercado que valoriza privilégios sobre talento, decidiram abrir o Nó Arquitetura — um espaço próprio, onde a técnica impecável se encontrasse com a crítica social, e onde não precisassem mais “pedir licença” para existir.

O desafio era criar uma identidade visual completa que traduzisse a filosofia do escritório para todos os materiais — do cartão de visitas ao Instagram, da papelaria às futuras aplicações digitais. O objetivo não era apenas “ficar bonito”; era comunicar autoridade inquestionável, brasilidade sem folclore e posicionamento crítico. E tudo isso com orçamento enxuto, prazo apertado (90 dias) e a necessidade de autonomia operacional — afinal, arquiteto de obra costuma entender de concreto, mas não muito de Figma, WordPress e HTML.

O resultado tangível foi um conjunto robusto de ferramentas visuais, todas organizadas no Manual de Marca: logotipo e variações (horizontal, vertical, monocromática), paleta de cores com códigos RGB/CMYK/Hex, tipografia (Instrument Sans e Lato), aplicações em papelaria (cartão, papel timbrado), sinalização (placa de obra), templates para Instagram e mockups realistas. Tudo entregue em formatos profissionais (vetores AI/EPS, Figma, PDFs) com sistema de autonomia operacional: templates editáveis no Canva para que os sócios pudessem usar a marca com segurança.

O conceito

O conceito central nasceu de uma síntese entre a filosofia projetual do escritório e a trajetória dos sócios. O nome “Nó Arquitetura” carrega uma carga simbólica poderosa: o nó une, amarra, conecta. Ele é uma solução simples, mas eficaz — exatamente como a arquitetura que eles defendem. Não é rebuscado, não é espetáculo; é funcional, honesto e essencial.

Traduzir isso visualmente exigiu encontrar o ponto de equilíbrio entre sofisticação e simplicidade. O logotipo foi desenhado com as três letras (N, O e acento) entrelaçadas, reforçando a ideia de conjunto e conexão. A geometria limpa remete ao rigor modernista, mas a forma orgânica do entrelaçamento traz a fluidez das tramas tropicais — muxarabis, cobogós, fibras naturais. É técnico e poético ao mesmo tempo.

A escolha tipográfica seguiu o mesmo princípio: fontes sem serifa, contemporâneas, que transmitem clareza e funcionalidade sem cair no lugar-comum. A tipografia precisa passar modernidade, mas também peso — porque eles não estão brincando. Como diz o ditado: “Deus está nos detalhes”. Quanto mais simples, mais preciso precisa ser.

A paleta de cores foi pensada como a seleção de materiais de acabamento em uma obra. Não são cores “da moda”; são cores de quem pisa no canteiro e olha para a mata atlântica:

  • Verde musgo tropical: conexão direta com a vegetação nativa e a natureza como estrutura.
  • Terracota ideal: referência à brasilidade material — a terra queimada, o tijolo, a argila.
  • Cinza concreto: o peso brutalista, a racionalidade modernista, a estrutura exposta.
  • Bege areia: respiro, clareza e atemporalidade.

 

Essas cores não foram escolhidas por “funcionarem bem juntas”. Elas foram escolhidas porque são a própria arquitetura do Nó traduzida em RGB e CMYK.

O conceito visual final foi batizado de Tramas Tropicais, amarrando técnica, brasilidade e crítica.

O Processo

O processo começou como qualquer bom projeto de arquitetura: com imersão profunda. Passei horas conversando com Caio, Luan e Valdemar — entendendo não apenas o que eles fazem, mas por que fazem e como chegaram até aqui. Analisei projetos arquitetônicos anteriores, referencias visuais que admiravam, e principalmente, ouvi as histórias de exclusão e resistência que moldaram a filosofia do escritório.

Essa fase de pesquisa incluiu:

  • Análise de concorrentes locais (a maioria com identidades genéricas, sem personalidade)
  • Estudo de referências do modernismo brasileiro (Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Severiano Porto)
  • Mapeamento de materiais e texturas que definem a linguagem projetual do Nó (concreto, madeira, muxarabi, vegetação tropical)
  • Entrevistas individuais com cada sócio para entender suas trajetórias e valores

Com o briefing consolidado, parti para a concepção do símbolo. Como todo arquiteto, iniciei o processo no papel. Croquis à mão, explorando diferentes formas de entrelaçar as letras N, O e o acento. Testei geometrias rígidas, formas mais orgânicas, proporções variadas. Foi um processo iterativo, quase como estudar volumetrias em um anteprojeto.

Os melhores conceitos foram digitalizados e refinados no Figma. Aqui, a precisão técnica entrou em cena: ajustes milimétricos de kerning, proporções matemáticas entre os elementos, testes de legibilidade em diferentes tamanhos. O símbolo precisava funcionar tanto em um capacete de obra quanto em um cartão de visitas de luxo.

Paralelamente, desenvolvi a paleta de cores e a hierarquia tipográfica. Cada decisão foi justificada: por que verde musgo e não verde bandeira? Por que Instrument Sans e não outra grotesca moderna? A resposta sempre voltava ao conceito: brasilidade crítica, simplicidade eficaz, técnica impecável.

Com a identidade aprovada, parti para as aplicações visuais. Criei mockups hiper-realistas mostrando a marca em contextos do dia a dia do escritório: crachá em obra, manual de marca sobre uma mesa com amostras de material, cartões em uma reunião com cliente. O objetivo era que os sócios vissem a marca vivendo, não apenas como arquivos vetoriais.

Um desafio técnico importante foi garantir autonomia operacional. Os três arquitetos têm obras rolando, reuniões com clientes, visitas a canteiros — não têm tempo de abrir o Illustrator toda vez que precisam postar no Instagram. Por isso, além de criar a identidade no Figma (garantindo precisão técnica), transportei e configurei todos os templates no Canva. Criei um sistema visual onde eles apenas trocam a foto e o texto, e o post continua elegante. Isso é Service Design: pensar na rotina de quem vai usar a marca.

O manual de marca foi estruturado como um projeto editorial, e não apenas um PDF burocrático. Cada página foi desenhada com a mesma atenção visual que uma prancha de apresentação arquitetônica. O resultado é um documento que os sócios têm orgulho de mostrar para clientes e fornecedores.

Os resultados

O resultado principal — aquele que realmente importa — foi que o Nó Arquitetura deixou de ser um escritório com presença digital tímida para se tornar uma marca com identidade própria, voz clara e autoridade visual. A identidade não é apenas “bonita”; ela comunica posicionamento.

COnsiderações finais

O feedback dos sócios foi unânime: a marca finalmente reflete a maturidade técnica e a postura crítica que eles sempre tiveram, mas que não conseguiam expressar visualmente. Caio comentou que, pela primeira vez, se sentiu “levado a sério” ao mostrar o cartão de visitas em uma reunião. Luana destacou que a paleta de cores “faz sentido” — não é decorativa, é estrutural. Valdemar ressaltou a importância de ter uma identidade que não pede licença para existir.

Construindo esse projeto, compreendi que arquitetura e design digital bebem da mesma fonte: ambos são sobre criar espaços onde as pessoas se sintam seguras e representadas. A decisão de usar o conceito “Tramas Tropicais” como eixo central — a conexão entre técnica, brasilidade e resistência — foi o divisor de águas. Permitiu que a gente saísse do óbvio e trouxesse textura, peso e crítica para um território que costuma ser acomodado e genérico.

A paleta de tons terrosos e naturais funcionou exatamente como planejado. Ela comunica “mão na massa” e “pé no chão”, mas com a sofisticação necessária para atrair o cliente consciente. É como quem diz: “nós entendemos de obra bruta, mas entregamos sensibilidade e propósito”. E essa é exatamente a mensagem que os sócios precisavam passar.

Um aprendizado técnico importante foi o desafio de traduzir teoria arquitetônica em linguagem visual. Arquitetos trabalham com partido, conceito, materialidade — e tudo isso precisa ser transposto para o universo digital sem virar pastiche. A chave foi entender que, assim como na arquitetura, no design a simplicidade exige rigor absoluto. Fazer um site HTML básico é fácil; fazer uma identidade minimalista que tenha peso e presença é extremamente difícil. Simplicidade não é ausência de trabalho; é síntese refinada.

Outro ponto crucial foi garantir autonomia operacional. De nada adianta criar uma identidade impecável se o cliente não consegue usá-la no dia a dia. Por isso, o sistema de templates editáveis no Canva foi tão importante quanto o logo em vetor. É Design de Serviço aplicado: pensar na jornada completa, não apenas no entregável final.

Mas o aprendizado mais profundo foi este: design pode ser um ato político. Quando criei a identidade do Nó Arquitetura, não estava apenas desenhando um logo — estava ajudando três arquitetos negros e nordestinos a ocuparem o espaço que sempre foi deles por direito, mas que o mercado insiste em negar. A marca se tornou uma ferramenta de resistência.

O Nó Arquitetura agora tem uma identidade que não pede licença. E no final das contas, é isso que importa: dar ao cliente as ferramentas para ele crescer com as próprias pernas, com clareza, autonomia e respeito à sua história.

Foto de Gabriel Nery Prata
Gabriel Nery Prata
Arquiteto urbanista, professor universitário, webdesigner e editor de vídeos.

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