
A cozinha contemporânea parece sofrer de um mal silencioso: a assepsia. Ingredientes viram; nomes dos pratos viram macronutrientes; identidade visual vira quase uma clínica de nutrição. E se você entrar na maioria das docerias “premium” de hoje, corre o risco de se perder no paladar funcional e vai achar que marcou uma limpeza de tártaro. É azulejo branco, minimalismo extremo, logos com fontes fininhas e uma frieza de laboratório. A solução mais óbvia do mercado para parecer sofisticado virou sinônimo de tirar a alma da comida.
O desafio da Confeitaria Bom Bocado era remar exatamente na direção oposta. A marca precisava evocar a “confeitaria de vó” — aquela memória afetiva do bolo quente, da fartura, do tátil —, mas elevando isso a um padrão visual inegavelmente premium. A Bom Bocado não queria vender um estilo de vida plastificado; queria vender caloria com afeto. O diagnóstico arquitetônico do projeto era claro: precisávamos demolir o minimalismo e construir uma marca baseada no “horror ao vazio”.

A concepção começou pelo logotipo, que projetei como se fosse a planta baixa de um bolo visto de cima. Criei um selo vintage onde os ornamentos, os arabescos e as bordas atuam intencionalmente como camadas de glacê e confeitos. O “B” cursivo e imponente divide espaço com uma tipografia pesada, criando uma hierarquia que força o olhar a passear pela marca. Não é um logo para “respirar”; é um logo para dar água na boca.
O desafio técnico deste projeto foi justamente domar a linguagem do design maximalista. Quando você decide preencher os espaços (o tal do horror vacui), a linha entre o sofisticado e o cafona é finíssima. Cada coração, cada arabesco e cada textura precisou ser milimetricamente testado em escala para garantir que a marca funcionasse tanto no avatar minúsculo do Instagram quanto impressa em uma caixa de 30 centímetros.
Foi aí que a produção dos mockups se tornou o coração do processo executivo. Para provar que essa linguagem nostálgica funcionava no mundo físico, aprimorei a renderização das aplicações estudando como a marca se comportaria em superfícies diversas e imperfeitas.
Projetei cenas com profundidade de campo rasa: tags rústicas de papelão presas com barbante ao lado de bombons reais; caixas texturizadas manchadas de cacau em mesas de madeira de demolição; e o próprio manual da marca — um livro quadrado de lombada branca — repousando num cenário quente e orgânico de cozinha. A ideia era testar a luz, a sombra e a textura. O design precisava parecer tátil.
A Bom Bocado deixou de ser um rascunho de doceria para assumir o protagonismo visual de uma confeitaria artesanal de alto nível.
O Premium não precisa ser frio. A identidade desenvolvida veste o produto com excelência, criando um reconhecimento de marca imediato que gera conforto e desejo. Quem vê a embalagem ou a tag da Bom Bocado, sabe exatamente a densidade e o sabor do que vai encontrar lá dentro.
Construindo esse projeto, validei uma premissa que vai muito além da estética gráfica: o design precisa ser coerente com a natureza do objeto que ele reveste. Tentar aplicar minimalismo suíço em um bolo de cenoura com ganache derretida é um erro estrutural.
O trabalho com a Bom Bocado me forçou a refinar a técnica de aplicação em superfícies diversas, entendendo que a luz que bate numa tela de celular é muito diferente da luz que reflete numa embalagem engordurada de manteiga. O maximalismo nostálgico exigiu um controle rigoroso de pesos e hierarquias para não desmoronar.
Como disse Julia Child: “Cozinhar é como o amor. Deve ser feito com abandono total, ou não feito de jeito nenhum.” Essa foi a grande lição do projeto. Descobri que, no design e na arquitetura de marcas gastronômicas, abraçar o exagero com método e rigor técnico é a forma mais honesta de conectar o consumidor ao produto. Para além de um logo, acabamos por projetar um apetite, uma fome de doce.

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