Confeitaria Bombocado

Identidade visual e posicionamento premium para confeitaria. São Carlos, 2026.

O desafio: Reposicionar uma confeitaria artesanal com sabores únicos e público fiel local, mas cuja identidade visual ainda parecia caseira demais — sem transmitir a sofisticação dos doces gourmet nem atrair um público mais amplo, como quem busca experiências premium em São Paulo.

A solução: Criei uma identidade visual clean e elegante, inspirada na delicadeza dos doces, com paleta suave de tons pastéis e neutros pra evocar frescor e artesanato refinado. As aplicações em rótulos e embalagens foram pensadas pra reforçar essa essência, com elementos gráficos que contam histórias dos sabores e facilitam a identificação no ponto de venda.

Resultado: A confeitaria ganhou uma presença mais profissional nos produtos, com os rótulos agora refletindo o cuidado artesanal sem cair no clichê de “doce bonitinho”. Isso fortaleceu a lealdade do público local, abriu portas pra parcerias e deu uma base visual que dura, sem depender de tendências passageiras — e a equipe usa os materiais com autonomia total.

Serviços utilizados neste caso

O contexto

A cozinha contemporânea parece sofrer de um mal silencioso: a assepsia. Ingredientes viram; nomes dos pratos viram macronutrientes; identidade visual vira quase uma clínica de nutrição. E se você entrar na maioria das docerias “premium” de hoje, corre o risco de se perder no paladar funcional e vai achar que marcou uma limpeza de tártaro. É azulejo branco, minimalismo extremo, logos com fontes fininhas e uma frieza de laboratório. A solução mais óbvia do mercado para parecer sofisticado virou sinônimo de tirar a alma da comida.

O desafio da Confeitaria Bom Bocado era remar exatamente na direção oposta. A marca precisava evocar a “confeitaria de vó” — aquela memória afetiva do bolo quente, da fartura, do tátil —, mas elevando isso a um padrão visual inegavelmente premium. A Bom Bocado não queria vender um estilo de vida plastificado; queria vender caloria com afeto. O diagnóstico arquitetônico do projeto era claro: precisávamos demolir o minimalismo e construir uma marca baseada no “horror ao vazio”.

Identidade visual para a confeitaria Bombocado.

O conceito

Comecei definindo o conceito do maximalismo de confeiteiro. Na história da arte e da arquitetura, preencher obsessivamente todos os espaços já foi símbolo de riqueza e complexidade. Trazendo isso para a confeitaria, entupir a marca com ornamentos, texturas e arabescos não é poluição visual — é a tradução gráfica da abundância. É a receita de vó que transborda da forma. O excesso, aqui, é metodicamente calculado para ser nostálgico e irresistível.Para sustentar todo esse preenchimento sem desmoronar, a paleta de cores foi a nossa fundação. Joguei fora o rosa chiclete clichê do setor. No lugar, apliquei o marrom escuro (trazendo a solidez e a suculência do cacau puro), o creme (evocando a textura de uma massa fresca) e um verde-água/teal (injetando um contraste contemporâneo e elegante). É uma paleta que dá fome antes mesmo de você ler o nome da marca.Na tipografia, a estrutura foi dividida em três pilares. Para os títulos e o logotipo, a Reynatta, com suas curvas orgânicas e expressivas que lembram o movimento de um fouet. Para os textos de apoio e legibilidade, a secura geométrica da Amiko (o nosso “concreto aparente”). E para costurar tudo isso com um tom editorial, a Fraunces, garantindo que o requinte estivesse presente na leitura.

Identidade visual para a confeitaria Bombocado.

O Processo

A concepção começou pelo logotipo, que projetei como se fosse a planta baixa de um bolo visto de cima. Criei um selo vintage onde os ornamentos, os arabescos e as bordas atuam intencionalmente como camadas de glacê e confeitos. O “B” cursivo e imponente divide espaço com uma tipografia pesada, criando uma hierarquia que força o olhar a passear pela marca. Não é um logo para “respirar”; é um logo para dar água na boca.

O desafio técnico deste projeto foi justamente domar a linguagem do design maximalista. Quando você decide preencher os espaços (o tal do horror vacui), a linha entre o sofisticado e o cafona é finíssima. Cada coração, cada arabesco e cada textura precisou ser milimetricamente testado em escala para garantir que a marca funcionasse tanto no avatar minúsculo do Instagram quanto impressa em uma caixa de 30 centímetros.

Foi aí que a produção dos mockups se tornou o coração do processo executivo. Para provar que essa linguagem nostálgica funcionava no mundo físico, aprimorei a renderização das aplicações estudando como a marca se comportaria em superfícies diversas e imperfeitas.

Projetei cenas com profundidade de campo rasa: tags rústicas de papelão presas com barbante ao lado de bombons reais; caixas texturizadas manchadas de cacau em mesas de madeira de demolição; e o próprio manual da marca — um livro quadrado de lombada branca — repousando num cenário quente e orgânico de cozinha. A ideia era testar a luz, a sombra e a textura. O design precisava parecer tátil.

A Bom Bocado deixou de ser um rascunho de doceria para assumir o protagonismo visual de uma confeitaria artesanal de alto nível.

Os resultados

O Premium não precisa ser frio. A identidade desenvolvida veste o produto com excelência, criando um reconhecimento de marca imediato que gera conforto e desejo. Quem vê a embalagem ou a tag da Bom Bocado, sabe exatamente a densidade e o sabor do que vai encontrar lá dentro.

COnsiderações finais

Construindo esse projeto, validei uma premissa que vai muito além da estética gráfica: o design precisa ser coerente com a natureza do objeto que ele reveste. Tentar aplicar minimalismo suíço em um bolo de cenoura com ganache derretida é um erro estrutural.

O trabalho com a Bom Bocado me forçou a refinar a técnica de aplicação em superfícies diversas, entendendo que a luz que bate numa tela de celular é muito diferente da luz que reflete numa embalagem engordurada de manteiga. O maximalismo nostálgico exigiu um controle rigoroso de pesos e hierarquias para não desmoronar.

Como disse Julia Child: “Cozinhar é como o amor. Deve ser feito com abandono total, ou não feito de jeito nenhum.” Essa foi a grande lição do projeto. Descobri que, no design e na arquitetura de marcas gastronômicas, abraçar o exagero com método e rigor técnico é a forma mais honesta de conectar o consumidor ao produto. Para além de um logo, acabamos por projetar um apetite, uma fome de doce.

Foto de Gabriel Nery Prata
Gabriel Nery Prata
Arquiteto urbanista, professor universitário, webdesigner e editor de vídeos.

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