Dr. Camila Roberta

Rebranding de identidade visual para consultório de odontologia. São Carlos, 2025.

O contexto

A Dra. Camila Roberta é uma mulher negra, de pele retinta, com um nível de precisão técnica absurdo e uma empatia rara no mercado. Mas quando você olhava para a marca anterior dela, o diagnóstico era duro: parecia ter saído de um gerador automático de logotipos dos anos 2000. Era genérica, “feinha” e nivelava o trabalho de excelência dela por baixo.

O desafio era tirá-la da vala comum da odontologia padronizada — aquela das clínicas frias e dos dentes vetorizados brilhantes — e transformá-la em uma referência de “Health Luxury” (Luxo em Saúde). Precisávamos destruir o estereótipo do dentista distante e construir uma marca que equilibrasse perfeitamente o rigor clínico com a sofisticação humana. Uma identidade feita para uma profissional que atende um público exigente, que não busca apenas um tratamento, mas uma experiência de cuidado premium e seguro.

O conceito

Para fugir dos clichês do mercado, fundamentei o projeto em um conceito central de suavidade cirúrgica.

A Camila protege e acolhe (suavidade), mas opera com precisão milimétrica e tecnologia de ponta (cirúrgica). Toda a comunicação visual precisava refletir essa dualidade. Era preciso transmitir assepsia extrema, mas sem transformar o consultório em um ambiente inóspito.

 

O Processo

O desenvolvimento começou na prancheta, de forma analógica, com lápis no papel. Como a maioria dos projetos na área da saúde, os primeiros croquis à mão nasceram um pouco presos aos vícios do mercado — flertando com a famigerada ideia de desenhar um dente. Mas, ao analisar o posicionamento que queríamos, percebi que isso a manteria na estaca zero.

Comecei a desconstruir a forma, limpando os excessos, até começar a brincar geometricamente com as iniciais da Camila Roberta (“C” e “R”). Testamos, iteramos e desenhamos incansavelmente. Avaliamos a espessura das linhas, o rigor dos traços uniformes e fugimos de qualquer gradiente datado. O resultado foi um monograma arquitetônico minimalista, onde o “C” abraça o “R” em uma proporção perfeita.

Na tipografia, a lógica foi a mesma: tentativa, erro e repertório. Rodamos testes com fontes arredondadas (como a Tsukimi e a Dongle) buscando amigabilidade, mas a leitura crítica mostrou que faltava o “peso clínico”. A solução foi pivotar e testar novamente até cravar a dupla Outfit e Mulish, que vestiram a marca com precisão cirúrgica e conforto de leitura.Para a paleta de cores, não houve intuição cega. Explorei exaustivamente as harmonias e combinações matemáticas através da ferramenta Adobe Color. A intenção era achar o ponto de intersecção exato entre o ambiente cirúrgico e o acolhimento, chegando aos tons documentados no manual: os off-whites, os cinzas frios e o toque de sofisticação do azul ardósia (Slate Blue).

Com a marca gráfica definida, fomos para a tangibilização. A criação dos mockups não foi delegada a geradores automáticos, mas sim construída “no braço” dentro do Photoshop. Explorei a fundo a lógica das máscaras de camada para aplicar o logotipo com perfeição nas texturas (como no papel de alta gramatura do cartão de visitas ou na porta de vidro jateado). Para fechar, utilizei o filtro do Camera Raw para uniformizar a luz, a temperatura e o grão de todas as cenas, garantindo uma unidade fotográfica de cinema.

O último grande desafio foi a Direção de Fotografia via Inteligência Artificial para o portfólio. E foi aí que a tecnologia testou nossos limites. Mesmo com prompts bem escritos e detalhados, a IA tentou empurrar os piores clichês da publicidade: gerou a dentista operando sem EPIs (um erro grotesco de biossegurança) e um paciente com um sorriso largo e falso no meio do procedimento. Mas intervimos manualmente (até mesmo com croquis feitos à mão para ajudar a IA a pensar um pouco. E a verdade clínica, finalmente, prevaleceu.

Toda essa jornada foi documentada em um Manual de Identidade Visual rigoroso, garantindo que o DNA da marca jamais seja diluído por terceiros.

Os resultados

A Dra. Camila Roberta deixou de ter um “logo bonitinho” para assumir o protagonismo visual de uma cirurgiã-dentista de elite. O portfólio gerado não vende “dentes perfeitos de banco de imagens”, vende um procedimento seguro, higiênico e incrivelmente humano.

A identidade visual agora envelopa o talento técnico dela, justificando seu posicionamento premium antes mesmo do paciente entrar no consultório.

COnsiderações finais

O desenvolvimento deste projeto foi uma verdadeira aula sobre as fronteiras entre a tecnologia e a direção de arte. O grande aprendizado metodológico foi, sem dúvida, o aprimoramento no uso das ferramentas de Inteligência Artificial lado a lado com os ajustes manuais clássicos.

A IA provou ser uma aliada formidável para otimizar o tempo, gerar volume criativo e testar iluminações em segundos. No entanto, ela esbarra em um limite muito claro: ela não pensa e adora o caminho mais fácil dos clichês.

Quando a máquina sugeriu um paciente sorrindo de boca aberta durante uma cirurgia, ou quando o desenho quase caiu no óbvio formato de um dente, ficou provado que as decisões reais de projeto necessitam de bagagem. Intervir na IA exigindo o uso de um afastador labial, ou ir para o Adobe Color para recalcular a matemática de uma paleta de cores, são ações que exigem senso crítico, repertório visual e um “feeling” de mercado que a máquina desconhece.

A tecnologia acelera a construção da casa, mas o projeto estrutural ainda depende do arquiteto. No fim das contas, foi essa combinação entre a potência da IA e o “feeling” (que, felizmente, ainda é exclusividade do cérebro humano) que permitiu criar para a Camila Roberta um espaço de autoridade incontestável.

Foto de Gabriel Nery Prata
Gabriel Nery Prata
Arquiteto urbanista, professor universitário, webdesigner e editor de vídeos.

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