Arq. Renato Sales

Portfólio audiovisual para arquiteto especialista em arquitetura efêmera. São Carlos, 2026

O desafio: Articular a identidade autoral de um arquiteto e o seu nicho de atuação, traduzindo sua filosofia de espaços efêmeros em um universo visual coeso que transcende o digital.

A solução: Um filme-conceito, um portfólio audiovisual. Desenvolvi direção de arte, roteiro e identidade visual, integrando-os em uma narrativa imersiva onde a arquitetura atua como protagonista, não cenário.

Resultado: Um vídeo que apresenta o portfólio de Renato, mas com storytelling, ritmo e densidade relacionado ao seu universo de atuação. E uma identidade visual que reforça a elegância e presença do arquiteto.

Serviços utilizados neste caso

O contexto

O portfólio Renato Salles nasceu de uma intenção muito específica de construir, a partir da arquitetura, um universo de marca que não se limitasse a apresentar os projetos produzidos, mas que também criasse uma experiência narrativa, estética e conceitual. Como ele trabalha com arquitetura efêmera e produção de espaços para eventos, era necessário deixar claro qual é seu nicho de atuação. A proposta aqui foi desenvolver uma presença digital capaz de condensar autoria, filosofia, direção de arte e posicionamento em um único corpo coerente.

O projeto começou pela construção de um personagem-arquiteto e de um mundo ao redor dele. Renato Sales emergiu como esse eixo. Um arquiteto negro, brasileiro, de meia-idade, cuja prática é atravessada pela arquitetura efêmera, por seus diálogos com a Haute Couture e por uma ética estética baseada em rigor, silêncio e intensidade.

Esse contexto importa porque o projeto foi pensado para criar uma figura autoral, quase cinematográfica, em que o filme-conceito, a identidade visual e o conteúdo editorial funcionam como partes de uma mesma obra.

O conceito

O conceito central do projeto é simples na formulação, mas bastante exigente na execução: traduzir arquitetura em narrativa digital. Mais especificamente: transformar a presença de um arquiteto em um universo perceptível, onde espaço, corpo, luz, materialidade e ritmo se encontram.

Renato Sales não é apresentado como um profissional convencional. Ele é construído como um ponto de vista. Sua filosofia explora a arquitetura por sua precisão e densidade. O filme e o conjunto editorial derivam dessa lógica. A arquitetura passa a operar como linguagem, deixando de ser apenas objeto de representação. Cada espaço concebido para o projeto — o Pavilhão Nebulare, a Passarela Fammings, a Arckhe e a Galeria Âmbar — funciona como uma cena, um dispositivo dramático e uma extensão da personalidade do arquiteto.

Essa abordagem permite que o projeto vá além de um portfólio convencional, tornando-se uma obra de construção de marca em sentido pleno: uma identidade com atmosfera, coerência e tensão interna. Em vez de mostrar apenas o que Renato faz, o projeto mostra como ele pensa e como os elementos se comportam no ambiente.

O Processo

O processo de desenvolvimento foi organizado como uma experiência interdisciplinar.

A base constitui em estética, narrativa, clareza e espacialidade. A construção do projeto aconteceu em camadas, cada uma reforçando a anterior.

1. Construção da persona e do universo

A primeira etapa foi definir quem é Renato Sales e qual é sua lógica de mundo. Essa definição foi essencial porque, no lugar de partir de um serviço ou de uma oferta, o projeto parte de uma presença.

Renato é concebido como um arquiteto de postura rigorosa, sofisticação discreta e autoridade silenciosa. Sua imagem, seus gestos, sua roupa e sua relação com o espaço foram pensados como extensões de uma filosofia arquitetônica. Trata-se da espinha dorsal do projeto.

2. Tradução da filosofia em linguagem visual

A partir da persona, o desafio passou a ser converter essa filosofia em linguagem visual. Escolhemos as cores, materialidade, luz, cenografia e composição.

O vermelho carmesim, os contrastes com preto e concreto, o uso de fumaça, vidro canelado, mármore, resina âmbar e metal negro fazem parte de uma gramática visual que comunica tensão, profundidade e elegância, bastante presente em sua arquitetura. O projeto foi desenhado para que a estética ilustrasse uma ideia e que a incorporasse.

3. Os quatro espaços como narrativa

Cada projeto arquitetônico foi concebido como um capítulo da mesma história.

  • Pavilhão Nebulare: abre a narrativa com mistério, imersão e estranhamento. A arquitetura aqui é quase etérea, com uma presença que parece surgir da fumaça.
  • ARCKHE Store: desloca a narrativa para a materialidade sensorial. Concreto, mármore e latão criam uma experiência de austeridade luxuosa.
  • Passarela Fammings: introduz o conflito e a intervenção. A ruína industrial é tensionada por uma passarela e por uma alfaiataria que confronta o espaço.
  • Galeria Âmbar: encerra a jornada com uma espécie de epifania. A resina translúcida transforma o espaço em um lugar de encontro, calor e reconhecimento.

Esse encadeamento cenográfico estrutura a leitura do projeto como uma experiência cinematográfica e editorial ao mesmo tempo.

4. O corpo como mediador

A modelo opera como dispositivo narrativo. É o corpo que mede o espaço, provoca o espaço e o interpreta.

A escolha de figurinos específicos para cada ambiente reforça essa lógica:

  • Couro preto brilhante no Pavilhão Neblina;
  • Alfaiataria desconstruída em vermelho e preto na passarela;
  • peças de alta costura dialogando com a aspereza da Archke Store
  • roupas azul-petróleo, contrastando com a luz âmbar na Galeria Âmbar

A relação entre corpo e arquitetura passa a ser estrutural. O corpo não está “dentro” da cena: ele é parte da cena.

5. Filme-conceito e montagem

O filme de aproximadamente três minutos foi estruturado como uma jornada sensorial. A câmera prioriza o espaço antes do corpo, o que ajuda a reforçar a ideia de que a arquitetura é o protagonista real da narrativa.

O ritmo muda conforme o ambiente: uma materialidade ancestral na abertura, delicado e material na loja, mais tenso e dinâmico na passarela e silencioso e íntimo na galeria final.

A trilha sonora e o sound design acompanham esse percurso com discrição e intenção. Nada aqui tenta chamar mais atenção do que deveria. O som existe para sustentar a atmosfera, sem disputar com ela.

6. Identidade visual e sistema editorial

A identidade gráfica reforça o mesmo pensamento. O monograma RS, a escolha tipográfica, a paleta restrita e os módulos visuais criam uma marca que parece consistente com o universo construído. Não há ruído, nem excesso ornamental gratuito. A estrutura tenta refletir a mesma disciplina do personagem.

Os resultados

COnsiderações finais

Este estudo de caso demonstra que é possível construir uma marca autoral sem recorrer aos códigos óbvios da autopromoção. Renato Salles aparece como uma posição estética e intelectual. O projeto mostra domínio sobre múltiplas frentes ao mesmo tempo: narrativa, direção de arte, arquitetura de informação, identidade visual, composição audiovisual e linguagem editorial. Isso é importante, porque o valor do trabalho não está em cada peça isolada, mas na articulação entre elas.

o projeto gera algo raro em portfólio: memória. Não é um trabalho que se esgota no primeiro olhar. Ele deixa uma impressão duradoura porque há densidade na construção do universo. Isso, para o tipo de público que você quer alcançar, vale muito.

O case também revela uma postura profissional clara: não entregar soluções genéricas, mas construir experiências que respeitam a inteligência do público e a especificidade de cada projeto.

Em suma, o projeto Renato Salles é, no fundo, uma declaração de método. Um dos projetos mais divertidos e emocionantes que já executei.

Ele afirma que arquitetura, digital, cinema e branding podem coexistir sem virar colagem arbitrária. Quando bem articulados, esses campos produzem algo mais forte: uma identidade com atmosfera, pensamento e consistência.

Com este projeto, fica claro que é possível projetar uma presença digital como quem projeta um espaço: com intenção, rigor, silêncio estratégico e atenção à experiência. E talvez esse seja o ponto mais interessante do trabalho. Porque, no fim, Renato Salles é também um argumento. Um modo de dizer que a arquitetura pode ser narrada, que o digital pode ter profundidade e que um projeto bem construído não precisa gritar para ser memorável.

Foto de Gabriel Nery Prata
Gabriel Nery Prata
Arquiteto urbanista, professor universitário, webdesigner e editor de vídeos.

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