A gente sai da faculdade achando que vai passar o dia desenhando croquis em guardanapos de linho, mas a realidade chega com uma voadora: planilha, cronograma atrasado, fornecedor que sumiu e cliente pedindo alteração “simples” que muda toda a estrutura. A ideia do arquiteto como um “artista intocável” é linda, mas não paga boleto. Se você não gerencia, tudo vira um caos e você passa a ser gerenciado por ele.
E não adianta torcer o nariz para a palavra “gestão” achando que isso vai matar sua criatividade. Pelo contrário. A gestão é o alicerce que permite que a sua arte fique de pé (literalmente). Segundo dados do Instituto de Gerenciamento de Projetos (PMI), até 2027, a economia global exigirá 87,7 milhões de funções de gerenciamento de projetos. Ou seja: ou você aprende a domar o bicho, ou vai ser engolido por ele.
Trazer a gestão de projetos para a arquitetura não é “gourmetizar” a profissão; é uma questão de sobrevivência básica. É garantir que você não vai pagar para trabalhar.
Arquiteto gerente de projetos? Quem é esse profissional
Sejamos justos: o papel da universidade não é nos transformar em máquinas de fazer dinheiro, mas em cidadãos com pensamento crítico. O problema é que, enquanto estamos ocupados aprendendo a pensar o espaço, o mercado — que não dá a mínima para a nossa capacidade de análise semiótica da arquitetura vernacular — nos espera do lado de fora com o porrete na mão. Ele está pronto para moer quem sai de lá sabendo citar Foucault de cor, mas sem ter a menor ideia de como se precifica um RRT. No fim, forma-se um pensador brilhante que corre o sério risco de pagar para trabalhar.
E note que estou falando de uma grade focada em formar mão-de-obra, e não cidadãos pensantes e com consciência de classe. Mas isso fica para outro momento.
O arquiteto gerente de projetos é aquele que entendeu que o escritório não é um ateliê de pintura do século XIX, mas uma empresa. Mesmo que você seja um “eu-quipe”, trabalhando de home office.
Logo, entender de negócios e gestão é o que separa o arquiteto que entrega o sonho do cliente daquele que entrega um pesadelo jurídico. O foco aqui é controle: de prazo, de risco, de dinheiro e, principalmente, de expectativa. Porque, convenhamos, gerenciar a expectativa de cliente é mais difícil que calcular viga de transição.
Gerenciamento de projetos: algumas definições
O Instituto de Gerenciamento de Projetos (PMI) define o projeto enquanto “um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo”. Para que este projeto se desenvolva, é necessário que um profissional ou equipe assuma a responsabilidade de planejá-lo, executá-lo, monitorar os processos e entregá-lo ao solicitante.
Sem sombra de dúvidas, é uma definição muito próxima ao que verificamos no trabalho do arquiteto, já que o mesmo dedica um período para criar um produto imobiliário exclusivo que traga soluções solicitadas por um cliente. Nesse sentido, é fácil estabelecer relações e aplicar os conceitos de gerenciamento de projetos às atividades do profissional arquiteto.
Nesse sentido, é preciso ter habilidades para enfrentar momentos críticos e eventuais adversidades do projeto. Por isso a importância do gerenciamento ao organizar e distribuir as atividades para equipes, liderar o projeto em várias etapas e acompanhá-lo até a entrega às partes interessadas.
A lógica do gerenciamento de projetos é trazer um conjunto de boas práticas que envolvem técnicas, ferramentas e estratégias ao gestor a fim de otimizar a administração das atividades. Dessa forma, garante-se que a realização das atividades ocorra de maneira fluida, com foco e assertividade nas tomadas de decisão.
Nesse sentido, o Project Management Body of Knowledge, também conhecido como guia PMBOK®, reúne conhecimentos e práticas bastante úteis que podem ser aplicadas à maioria dos projetos. Desenvolvido pelo PMI, busca estabelecer um padrão de gerenciamento que pode aumentar as chances de sucesso de projetos entregarem o valor do negócio e os resultados esperados.

O arquiteto gerente de projetos: Os cinco grupos de processos gerenciais
Para não ficar parecendo aula teórica de sexta-feira à noite, vamos ver como isso funciona na vida real, no canteiro e no escritório.
Segundo o PMBOK®, o gerenciamento é estruturado em cinco grupos processuais. Assim, o gestor consegue ter controle sobre todas as etapas e garantir o desenvolvimento do projeto.
Iniciação
É o namoro. O momento em que o cliente chega, você entende o que a pessoa quer (ou o que ela acha que quer) e formaliza o acordo. Aqui é onde muita gente erra: promete o mundo sem contrato assinado. A iniciação é o aperto de mão, mas com papelada. É definir o que vai ser feito para ninguém dizer depois “ah, mas eu achei que incluía o paisagismo”.
Planejamento
Aqui é onde a mágica — e a dor de cabeça — acontece. Não é só desenhar a planta. É planejar como aquilo vai ser construído. Quanto tempo leva? Quanto custa? Quem faz o quê? Um planejamento ruim é igual fundação mal feita: você pode até subir as paredes, mas uma hora a casa cai. É a etapa de estruturar o caos antes dele acontecer.
Execução
Também conhecida como A hora da verdade. O projeto sai do papel e vira tijolo, cimento ou código (no meu caso de Web Arquiteto). É botar a mão na massa. Se o planejamento foi bem feito, a execução flui. Se não foi, vira aquele “apaga incêndio” diário que a gente conhece bem.
Monitoramento e Controle
É o “olhar de lince”. Não adianta planejar e largar lá. Tem que conferir. O pedreiro está seguindo o prumo? O material chegou? O orçamento estourou? Monitorar é garantir que a realidade não se desvie muito da fantasia que vendemos no projeto. É aqui que você evita que o cliente tenha um treco ao ver a fatura do cartão.
Encerramento
A entrega das chaves, o Habite-se, a festa da cumeeira. Mas também é a hora de aprender. O que deu errado? Onde perdemos dinheiro? O encerramento formaliza o fim, paga as contas e, se tudo der certo, garante a indicação para o próximo trabalho.

As 10 áreas de conhecimento em gerenciamento
O PMBOK® divide a gestão em 10 áreas. Parece muita coisa, mas você já faz isso intuitivamente (e provavelmente de forma desorganizada). Vamos arrumar a casa.
Gerenciamento de escopo
O famoso “não é pastelaria”. Escopo é definir o limite. O cliente contratou o projeto da sala, não da casa inteira. Definir o escopo protege você de trabalhar de graça e protege o cliente de não saber o que está pagando. Se não está no contrato, é aditivo. Simples assim.
Gerenciamento da comunicação e stakeholders
Stakeholder é todo mundo que pode atrapalhar ou ajudar seu projeto: cliente, vizinhos, prefeitura, fornecedor. E comunicação… ah, a comunicação! A maioria dos problemas na obra não é técnica, é fofoca ou telefone sem fio. “Eu disse bege, ele pintou de gelo”. Gerenciar comunicação é garantir que todo mundo entendeu a mesma coisa e estão alinhados.
Gerenciamento de cronograma
O tempo é o único recurso que não se recupera. Cronograma não é só uma lista de datas para inglês ver; é um compromisso. Na arquitetura, um atraso de um dia na concretagem pode virar um atraso de um mês na entrega. Gerir o tempo é respeitar o dinheiro do cliente e a sua própria vida pessoal.

Gerenciamento de custos
Arquitetos têm fama de não saberem fazer conta, e a gente precisa mudar isso. Gerenciar custos não é só fazer orçamento, é controlar o fluxo de caixa. É saber que se gastar muito no revestimento da sala, vai faltar para a torneira do banheiro. É a arte do equilíbrio financeiro.
Gerenciamento de qualidade
De nada adianta entregar no prazo se ficar uma porcaria. Qualidade é conformidade. É seguir a norma, é seguir o projeto. Na arquitetura, qualidade é segurança e funcionalidade. Um projeto lindo que tem infiltração na primeira chuva é um projeto fracassado. Para quem possui um perfil mais analítico, é um oásis de atuação.

Gerenciamento de aquisições
A arte de saber comprar e contratar. Vidro, marcenaria, automação. Você vira um maestro de fornecedores. Se o vidraceiro atrasa, a obra pára. Gerenciar aquisições é garantir que os materiais e serviços certos cheguem na hora certa, pelo preço justo.
Gerenciamento de riscos
A Lei de Murphy impera na obra: se algo pode dar errado, vai dar. Chuva, greve de caminhoneiro, acidente, cliente mudando de ideia. Gerenciar risco é ter um Plano B (e C, e D). É prever o talude que pode deslizar ou o orçamento que pode estourar e já ter a solução na manga.
Gerenciamento de recursos
Recurso é gente, equipamento e material. É saber que você não pode colocar o eletricista e o pintor na mesma sala ao mesmo tempo sem dar briga. É otimizar o uso de tudo para não haver desperdício.
E aqui é importante um adendo: o ambiente corporativo tende a enxergar pessoas como “recursos”. explora-se até onde for possível e, se der algum problema, troca. Meio desumano, né?
Gerenciamento de integração
Por fim, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ou a banda do Chaves, se não for bem feita. A integração é o que une todas as outras áreas. É o papel do arquiteto como regente da orquestra, garantindo que o cronograma converse com o custo, que converse com o escopo. É a visão do todo.

Considerações sobre o arquiteto gerente de projetos: uma definição para fazer sentido
Olha, no fim das contas, o gerenciamento de projetos é o que transforma um desenho bonito em uma realidade habitável. Aproximar a lógica empresarial da arquitetura não tira a poesia da profissão, pelo contrário, dá a ela estrutura para existir no mundo real.
Existem muitas aproximações entre a lógica empresarial e o ofício do arquiteto. De certo modo, ambas as esferas se complementam e o arquiteto poderá tirar proveito disso profissionalmente. Por estar habituado com os processos de projeto, ele poderá aprimorar os conhecimentos com uma especialização. A FGV possui uma pós-graduação em Gerenciamento de Projetos que é bem interessante para arquitetos, até mesmo para os recém formados.
Seja projetando um edifício ou construindo sua presença digital (que também é uma obra, diga-se de passagem), a lógica é a mesma: planejamento, execução e controle. O arquiteto que domina isso não é apenas um desenhista, é um estrategista. Podemos destacar a IGNEA Arquitetos Associados, como exemplo de escritório de arquitetura que aplica ferramentas de gerenciamento em todos os projetos contratados.
Se essa conversa sobre estrutura e gestão fez sentido para você, ou se você sentiu aquela dorzinha na consciência lembrando da última obra que atrasou, talvez seja hora de analisar como você está construindo sua carreira, ou como está gerindo todos os processos internos de seu escritório.
Até a próxima!





